Cristo Salvou a Raça Humana

Em que sentido podemos falar de Cristo salvando o mundo? Significa que Sua morte realmente redime todas as pessoas, independentemente da fé ou da sua ausência? Significa que todos são resgatados, mas apenas um grupo eleito recebe o benefício?


Existem dois lugares nos escritos de Ellen G. White, onde ela afirma que Cristo salvou o mundo. Essas afirmações são usadas para argumentar que ela acreditava que na cruz Jesus salvou legalmente toda a raça humana. Olhemos para eles:

 

 Cristo foi tentado por Satanás em uma maneira cem vezes mais severa do que foi Adão, e em circunstâncias de todas as maneiras mais provado. O enganador se apresentou como um anjo de luz, mas Cristo resistiu às suas tentações. Ele redimiu a queda de Adão em vergonha e salvou o mundo. Há esperança para todos que desejam vir a Cristo e O recebem como seu Salvador pessoal. "[1]

 

Isso foi escrito em 1898, e parece ser a primeira vez que ela usou a expressão “salvou o mundo.” A sentença que segue essa afirmação é muito importante a fim entender corretamente o que ela quis dizer. Desde que Cristo salvou o mundo, “há esperança para todos os que desejam vir a Cristo, e O receber como seu Salvador pessoal.” É evidente que quando ela diz que Cristo “salvou o mundo” não significa que toda a raça humana foi salva. O que ela quer dizer? Olhe para a citação novamente. Ela descreve o ataque de Satanás contra Cristo e afirma que “Cristo resistiu às suas tentações.” Ele derrotou Satanás! O resultado dessa vitória foi que “Ele redimiu a queda em vergonha de Adão e salvou o mundo.” Ele pagou o resgate exigido como resultado da queda de Adão, e salvou o mundo no sentido de que agora existe esperança para todos os que vêm a Cristo, e O recebem como seu Salvador pessoal.

No próximo parágrafo, ela continua a explicar com mais detalhes o que quer dizer. Ela discute a encarnação de Cristo, como Ele Se familiarizou com as tentações e provações, colocando-Se entre os pobres, a fim de compreender suas aflições. Então ela diz:

 

 Diante do universo celestial, Ele revelou a grande salvação que Sua justiça traria aos homens, se eles a aceitassem – uma herança entre os santos e os anjos, na presença de Deus.”[2]

 

Ela agora está colocando a ênfase nos resultados da salvação que Ele “traria para os homens, se eles a aceitassem.” Ele traz a salvação, mas os humanos têm que aceitá-la ou de qualquer modo ela não estará disponível a eles. Como Ele nos trouxe essa salvação? Ela explica imediatamente:

 

 Com Seu braço humano Cristo circundou a raça, enquanto com Seu braço divino Ele Se apegou ao trono do Infinito, unindo o homem finito com o Deus infinito. Pela transgressão o mundo tinha sido divorciado do céu. Cristo construiu uma ponte sobre o abismo e conectou a terra com o céu. Na natureza humana, ele manteve a pureza do Seu caráter divino. ... Ele veio para transmitir Sua própria natureza divina, Sua própria imagem, à alma arrependida e crente.”[3]

 

A alienação dos seres humanos de Deus, que foi o resultado da queda, chegou ao fim através de Cristo. Ele Se tornou uma ponte viva entre Deus e os seres humanos porque Ele era ambos, humano e divino. Este foi o objetivo do ato de salvação de Cristo. Ele tornou possível que os seres humanos estivessem unidos a Deus; Ele “conectou a terra com o céu.” Mas apenas pecadores arrependidos podem se beneficiar dessa salvação. Isso é o que ela quis dizer quando disse que Cristo “salvou o mundo.”

Em 2 de junho de 1898, ela abordou novamente o mesmo assunto e o desenvolveu um pouco mais. No entanto, a mensagem básica continuou a ser a mesma. Aqui está o que ela escreveu:

 

 Cristo foi tentado por Satanás de uma maneira cem vezes mais severa do que foi Adão, e sob circunstâncias de todas as maneiras mais tentadoras. O enganador se apresentou como um anjo de luz, mas Cristo resistiu às suas tentações. Ele redimiu a queda vergonhosa de Adão, e salvou o mundo. 

Com Seu braço humano, Cristo circundou a raça, enquanto que com Seu braço divino, Ele Se apegou ao trono do infinito, unindo o homem finito com o Deus infinito. Ele fez uma ponte sobre o abismo que o pecado havia feito, e ligou a terra com o céu. Em Sua natureza humana, Ele manteve a pureza de Seu caráter divino. Ele viveu a lei de Deus, e prestou-lhe homenagem em um mundo de transgressão, revelando ao universo celestial, a Satanás, e a todos os filhos e filhas caídos de Adão, que por meio de Sua graça, a humanidade pode guardar a lei de Deus. Ele veio para transmitir Sua própria natureza divina, sua própria imagem, para a alma arrependida e crente.

Existe esperança para todos os que desejam vir a Cristo e o receber como seu Salvador pessoal. A fé que se apoia em Cristo operará pelo amor e purificará a alma.”[4]

 

As mesmas ideias encontradas no artigo anterior são encontradas neste. Primeiro, Cristo foi tentado, mas Ele venceu Satanás. Segundo, ao vencer Satanás, Ele “remiu a queda vergonhosa de Adão, e salvou o mundo.” A conexão entre o ato de redenção e a salvação é a mesma do artigo anterior. Em terceiro lugar, ela imediatamente prossegue para explicar o que quis dizer quando afirmou que Cristo “salvou o mundo.” Significava que o trabalho objetivo de salvação de Cristo se consistiu em unir os seres humanos e Deus. “Ele construiu uma ponte sobre o abismo que o pecado havia feito, e conectou a terra com o céu.” Os seres humanos agora podem ter acesso e comunhão com Deus, tornando possível que os pecadores arrependidos sejam unidos a Deus e habilitados a obedecer à Sua lei. Por causa desse ato objetivo de salvação em favor do mundo, “existe esperança para todos os que desejam vir a Cristo e recebe-Lo como seu Salvador pessoal.”

Portanto, a frase “salvou o mundo” não significa que toda a raça humana foi legalmente salva na cruz. Significa que Cristo, por meio de Sua vida de obediência e Sua morte sacrificial, pagou o preço por nossa redenção e fez uma ponte sobre a separação causada pelo pecado de Adão, tornando possível que os pecadores arrependidos tenham acesso a Deus e sejam aceitos por Ele.

 

Nota Sobre a Redenção:

 

Eu gostaria de fornecer várias declarações de E. G. White nas quais ela explica o que quis dizer quando disse que Cristo redimiu-nos na cruz. Aqui está em questão o assunto de saber se ela disse ou não que quando Cristo redimiu-nos na cruz toda a raça humana foi legalmente justificadae se salva em que sentido foi salva.

 

1. Todos Pertencem a Cristo Pela Criação e Redenção: 

 

“Devemos instruir e orientar as almas a olhar para o exemplo de Cristo, a compreender sua obrigação para com Ele, que são Suas pela criação e pela redenção. Ele é o dono de todos os homens e mulheres e crianças que vêm ao mundo. Ele tornou-Se isto pagando o preço do resgate. Se os seres humanos caídos consentirem em se tornar filhos e filhas de Deus em obediência voluntária, eles se tornarão um com Cristo. O Salvador os comprou dando Sua vida para pagar a penalidade do pecado. ... Aqueles que são verdadeiramente convertidos revelarão a graça salvadora de Cristo trabalhando por essas almas cegadas por Satanás.”[5]

 

Existem diversos detalhes importantes nesta citação singular que merecem ser enfatizados. Primeiro, todo ser humano que vem a este mundo pertence a Cristo, porque Ele pagou o preço da redenção. Em segundo lugar, os seres humanos têm de concordar em se tornar filhos de Deus, demonstrando-o através de uma vida de obediência a Deus. Terceiro, é depois de consentir ser filhos de Deus que se tornam um com Cristo. O fato de Cristo redimir a todos na cruz não os torna automaticamente um com Ele.

 

2. Cristo Tem a Escritura de Posse:

 

“O mundo não reconhece que, a um custo infinito, Cristo adquiriu a raça humana. Eles não reconhecem que pela criação e pela redenção Ele detém uma reivindicação justa para cada ser humano. Mas como o Redentor da raça caída, a Ele foi dado a escritura de posse, o que Lhe dá direito a reivindicá-los como Sua propriedade.”[6]

Todos nós pertencemos a Cristo através da criação e da redenção. Por causa do pecado, sua reivindicação de posse nos levaria à morte eterna. Mas nós também pertencemos a Ele através da redenção e isso significa que Ele tem o direito de reivindicar-nos como Sua propriedade, a fim de nos salvar. De acordo com E. G. White, a raça humana não está disposta a reconhecer que todos nós fomos comprados por Cristo, que pertencemos a Ele, e que Ele tem o direito legal, a escritura de posse, para reivindicar-nos como Seus. A implicação é que o que Ele fez objetivamente na cruz por nós não resulta automaticamente em nossa libertação. Há uma falta de vontade de aceitar a posse de Cristo e enquanto esse for o caso, não somos libertados ou salvos de qualquer maneira ou forma.[7]

 

3. Cristo Pagou o Preço Como Um Dom Por Nós:

 

“Cristo pagou o preço da sua redenção. Há apenas uma coisa que você pode fazer, que é aceitar o dom de Deus. Você pode vir com todas as suas necessidades e invocar os méritos de um Salvador crucificado e ressurreto; mas você não pode vir esperando que Cristo cobrirá sua iniquidade, sua indulgência diária no pecado, com Seu manto de retidão." [8]

 

O dom de uma redenção já obtida por Cristo por nós não é forçado sobre nós. A redenção que Cristo adquiriu é “para todos os que a recebessem;”[9] se todos a receberem todos serão salvos. Deus, através de Cristo, preservou a nossa liberdade e Ele espera que a usemos ao escolhe-Lho. Devemos aceitar o dom em um espírito de arrependimento e uma vontade de nos separar dos nossos pecados. Observe como ela é enfática em negar que o “manto de justiça” não cobre nossa iniquidade e indulgência diária no pecado. No entanto, a teoria de uma justificação legal universal ensina precisamente que a justiça de Cristo abrange a maldade e a indulgência ao pecado de indivíduos que ainda vivem em seus pecados e iniquidades, em rebelião contra Deus!

 

4. Através da Redenção Cristo Obteve o Direito de Resgatar-nos: 

 

Na Cruz do Calvário Ele pagou o preço do resgate da raça. E assim, Ele adquiriu o direito de resgatar os cativos das garras do grande enganador, que por uma mentira inventada contra o governo de Deus, causou a queda do homem, e que, consequentemente, perdeu todo o direito à alegação de ser chamado súdito leal do reino de Deus.

Satanás se recusou a deixar seus cativos irem. Ele os manteve como seus súditos por causa de sua crença em sua mentira. Tornou-se assim seu carcereiro. Mas ele não tinha o direito de exigir que um preço fosse pago por eles; porque ele não tinha obtido posse deles por conquista legal, mas falsa pretensão.

Deus, sendo o credor, tinha o direito de fazer qualquer provisão para a redenção dos seres humanos. A justiça exigia que um determinado preço fosse pago. O Filho de Deus era o Único que podia pagar esse preço. Ele Se voluntariou para vir a esta terra e passar pelo terreno onde Adão caiu. Ele veio como o redentor da raça perdida, para conquistar o astuto inimigo, e por Sua fidelidade firme ao direito, para salvar todos os que O aceitassem como seu Salvador."[10]

 “Que direito tinha Cristo de arrebatar das mãos do inimigo os cativos? — O direito de ter feito um sacrifício que satisfaz aos princípios da justiça pelos quais é governado o reino dos Céus. Veio Ele à Terra como Redentor do gênero humano perdido,... Nosso resgate foi pago por nosso Salvador. Ninguém precisa ser escravizado por Satanás. Cristo está presente, como nosso ajudador todo-poderoso.”[11]

 

Observe, em primeiro lugar, que ao redimir-nos, pagando o preço pela redenção da raça humana, Cristo tem agora o direito de nos resgatar do poder escravizador de Satanás. Segundo, isso é necessário porque Satanás não está disposto a libertar seus cativos; ele não reconhece o direito legal de Cristo. Ele é o carcereiro e ainda está exigindo que um preço seja pago, possivelmente para ele, para a libertação deles. Mas ele não tem o direito de fazer essa reivindicação porque eles não lhe pertencem. Terceiro, Deus é o credor e Ele determinou como a redenção devia ser efetuada. Um preço devia ser pago, mas devia ser pago através do Filho de Deus. Em quarto lugar, Ele veio como um Redentor para a raça humana e derrotou Satanás. Finalmente, a eficácia salvadora da redenção que Cristo realizou é para “todos os O aceitassem como seu Salvador.” Não há necessidade de ninguém ser “escravizado por Satanás;” Cristo está diante de nós, pronto para nos libertar do poder do inimigo. 

 

5. Cristo Nos Resgatou Tomando Nosso Pecado Sobre Ele:

 

A divindade de Cristo se comprometeu a suportar os pecados do transgressor. Este resgate está em terreno sólido; esta paz prometida é para o coração que recebe Jesus Cristo. E recebendo-O pela fé, somos abençoados com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo.”[12]

O resgate pago por Cristo – a expiação sobre a cruz – está sempre diante deles.”[13] 

 

 O preço pago por nossa redenção foi a morte sacrificial de Cristo na cruz como nosso substituto e portador do pecado – Sua expiação na cruz. É depois de recebê-Lo pela fé “que somos abençoados com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo.” A realidade da obra objetiva da salvação e redenção que Cristo executou em favor da raça humana tornou possível a todos retornar a Deus e reconhecer Cristo como seu legítimo dono, que pode realmente livra-los do poder escravizador de Satanás.

 

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[1]“Christ, The Second Adam,” Manuscript Releases, vol. 8, p. 40.
[2]. Idem.
[3]. Idem, pp. 40, 41.
[4]. “The Second Adam,” Youth Instructor, 2 de junho de 1898.
[5]. This Day With God, p. 355.
[6]. Letter 136, 1902 (SDABC, vol. 7a, p. 466).
[7]. Esses comentários nos trazem muito perto dos pontos de vista daqueles que pregam a justificação legal universal, mas o que E. G. White está afirmando não é exatamente o que eles estão dizendo. Eles vão além do que ela afirmou introduzindo uma visão que não é bíblica e que ela nunca apoiou ou estava ciente de que existia. Permita-me dar-lhe um exemplo. João Sequeira escreveu: “Eu creio que a Bíblia ensina que Deus realmente e incondicionalmente salvou toda a humanidade na cruz para que fôssemos justificados e reconciliados com Deus por esse ato (Rm 5:10, 18; 2Co 5:18, 19). Eu creio que a única razão pela qual alguém se perderá é porque ele ou ela deliberadamente e persistentemente rejeita o dom de Deus da salvação em Cristo” (Beyond Belief [Boise, ID: Pacific Press, 1993], p. 8). A ideia que Deus “na verdade e incondicionalmente salvou” a raça humana na cruz é estranha tanto para a Bíblia como para E. G. White.
[8]. “The Poor in Spirit,” Bible Echo, 15 de maio de 1892, par. 8.
[9]. “Àqueles que rejeitam a misericórdia tão livremente oferecida, ainda será feito saber o valor do que eles desprezaram.
Eles sentirão a agonia que Cristo suportou na cruz para comprar a redenção para todos os que a recebessem. E então perceberão o que perderam – a vida eterna e a herança imortal” (“Be Zealous and Repent,” Review and Herald, 4 de setembro de 1883).
[10]. Letter 20, 1903. (SDABC, vol. 7a, pp. 468, 469).
[11]. Mensagens Escolhidas, vol. 1 p. 309.
[12]. Manuscript 114, 1897 (SDABC, vol. 7a, p. 466).
[13]. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, p. 190 (SDABC, vol. 7a, p. 468).
  




Fecha: 
2001
Translation: 
Translated by a volunteer